Titulo: Ambientes visuais abaixo do ideal podem afetar negativamente o Desenvolvimento Cognitivo Infantil?
Sugestão de referência: Lavdas, A. A., & Salingaros, N. A. (2021). Can suboptimal visual environments negatively affect children’s cognitive development?. Challenges, 12(2), 28.
Disponível: https://www.mdpi.com/2078-1547/12/2/28
RESENHA: O presente artigo discute indícios de que as crianças nascidas durante o período de isolamento social imposto pela epidemia de COVID-19 tenham problemas de desenvolvimento cognitivo, sem terem sido acometidas pelo vírus. Os autores discutem a possibilidade de que a privação ambiental – e, especialmente, a falta de estimulação visual apropriada – pode ser uma das causas desses possíveis déficits.
Os autores justificam que sua linha de raciocínio está de acordo com descobertas anteriores sobre crianças criadas em orfanatos com pouca estimulação ambiental, levantando a hipótese de que a arquitetura minimalista, estilo predominante nas últimas décadas, está entre os potenciais fatores contribuintes. Dessa forma, o processo de eliminar a complexidade pode se revelar prejudicial, fornecendo estimulação ambiental abaixo do ideal e oportunidades de interação durante os estágios críticos do desenvolvimento do cérebro.
Assim, a grande questão levantada pelos autores é se a privação sensorial pode afetar o desenvolvimento cognitivo das crianças e o que a neurociência tem a dizer a respeito. Sabe-se que o isolamento em ambientes minimalistas e com privação sensorial afeta o desenvolvimento cognitivo negativamente e pode reduzir consideravelmente o tamanho do cérebro dos animais. Donald O. Hebb, grande neurocientista, postulou na década de 1940 que um ambiente enriquecido com complexidade ordenada favorece a inteligência. Essa ideia foi corroborada na década de 1960, quando o enriquecimento ambiental (técnica que se baseia em colocar estímulos nas gaiolas de cobaias, por exemplo) favoreceu mudanças estruturais nos cérebros de animais.
Este ensaio postula que os humanos moldam seu ambiente por meio da imposição ou complexidade organizada na forma de cores, detalhes, formas fractais, pinturas murais e organização, projetando uma complexidade informacional rica e organizada no ambiente artificial. O ambiente imita a entrada visual necessária para desenvolver nossa mente quando bebês e para alimentar nossa necessidade de complexidade informacional para a qual a evolução humana nos equipou para garantir nossa sobrevivência. Os autores acrescentam que, em termos evolutivos, os humanos, e outros animais antes de nós, desenvolveram o que hoje chamamos de “inteligência” como uma ferramenta para interpretar a complexidade do ambiente natural.
O artigo aponta que a profissão de arquiteto precisa prestar atenção no ser humano como um todo, incluindo o desenvolvimento infantil. Estudos recentes de bebês nascidos durante o isolamento social imposto pela COVID-19 levantam questões alarmantes sobre a possibilidade de desenvolvimento cognitivo reduzido. Vários argumentos foram coletados para apontar para a falta de complexidade visual em projetos minimalistas, que hoje são bastante comuns, e seu possível impacto no cérebro em desenvolvimento.
Autora da resenha: JABOINSKI, Juliana. 2023.
Graduada em Psicologia.
Desenvolveu pesquisas em neurociência básica de 2007 a 2017.
Mestra em Psicologia com ênfase em neurociências pela UFRGS.
Observações importantes:
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